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Fim do stay period libera penhora de recebíveis cedidos em garantia

A Quarta Turma do STJ decidiu que, passado o stay period, o juiz da recuperação não pode travar a cobrança de crédito extraconcursal.

Equipe Redempta20 de janeiro de 2026, 4 min de leitura
Fim do stay period libera penhora de recebíveis cedidos em garantia

Um banco tinha crédito garantido por cessão fiduciária de recebíveis contra duas empresas em recuperação judicial em Itajaí (SC) e conseguiu penhorar dinheiro nas contas delas pelo Bacenjud. O juiz da recuperação mandou devolver os valores, com base na manifestação da administradora judicial de que o caixa era essencial à operação. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina manteve a ordem.

Em dezembro de 2025, a Quarta Turma do STJ reformou a decisão, por unanimidade. Depois do stay period, disse a Turma, o juiz da recuperação não pode impedir a cobrança de crédito extraconcursal invocando a preservação da empresa. O recurso foi apresentado pelo banco e seguiu com o fundo de investimento em direitos creditórios que comprou o crédito, detalhe que interessa a quem opera carteiras de NPL.

A decisão da Quarta Turma

O caso é o REsp 1.994.200/SC, relatado pela ministra Maria Isabel Gallotti e julgado em sessão virtual encerrada em 1º de dezembro; o acórdão saiu no dia 4. A ementa diz duas coisas.

Recebíveis dados em garantia fiduciária são crédito em dinheiro, e não bem de capital. Por isso ficam fora da exceção do art. 49, § 3º, da Lei 11.101/2005, que impede retirar da empresa, durante o stay period, os bens essenciais à atividade. O STJ já seguia essa linha, como mostra a notícia do tribunal de dezembro de 2021 sobre crédito cedido fiduciariamente.

E, desde a Lei 14.112/2020 (aplicada também aos processos em andamento), acabado o prazo do art. 6º, § 4º, o juízo da recuperação não pode barrar a satisfação de crédito extraconcursal com base na preservação da empresa.

Crédito extraconcursal é o que fica fora do plano. Ele não é votado em assembleia, não sofre deságio e não segue o cronograma negociado com os demais credores. O exemplo mais comum é o do credor com alienação ou cessão fiduciária: a recuperação não altera a dívida dele, mas, durante um tempo, limita o que ele consegue tirar da empresa.

O prazo na Lei 11.101

O art. 6º, § 4º, da Lei 11.101/2005 fixa o stay period em 180 dias, contados do deferimento do processamento da recuperação. O prazo pode ser prorrogado uma única vez, por igual período e em caráter excepcional, se a empresa não tiver contribuído para a demora. O total chega, no máximo, a 360 dias.

A reforma de 2020 também incluiu o § 7º-A no mesmo artigo. Ele mantém o credor fiduciário fora da suspensão, mas permite ao juízo da recuperação suspender constrições sobre bens de capital essenciais enquanto durar o stay period. No caso de Itajaí, nenhuma das duas proteções se aplicava, porque o dinheiro penhorado não era bem de capital e o prazo de suspensão já tinha terminado.

O caminho até o STJ

O TJSC reconheceu que o crédito não se submetia à recuperação. Mesmo assim, entendeu que o juízo da recuperação devia controlar as constrições para não comprometer o plano e a atividade das empresas, ainda mais em plena pandemia. Para o tribunal estadual, enquanto a questão da essencialidade não fosse resolvida, o bloqueio era inadmissível; o acórdão lembrava também que a recuperação já estava na fase de cumprimento do plano.

Esse raciocínio estende a proteção sem prazo, porque quase toda empresa em recuperação consegue alegar que precisa do caixa. A Quarta Turma afastou o argumento para o credor extraconcursal depois do fim do stay period.

Na cobrança

Para o credor com cessão fiduciária de recebíveis, o acórdão sustenta o pedido de penhora de dinheiro depois do prazo legal e o recurso contra decisões que mandem desbloquear valores só com base na preservação da empresa.

  • Anote a data do deferimento do processamento e verifique se houve prorrogação, e por quanto tempo.
  • Tenha à mão o contrato de cessão fiduciária registrado e a decisão que reconheceu o crédito como extraconcursal.
  • Separe dinheiro de bem de capital. Máquina, veículo e imóvel usados na produção podem ter outro tratamento; recebível e saldo em conta, segundo o STJ, não.
  • Se o juiz da recuperação mandar desbloquear valores depois do prazo, recorra com base neste acórdão e peça que a decisão aponte qual bem de capital estaria em jogo.
  • Se o crédito foi cedido, junte os documentos da cessão para que o cessionário assuma a posição no processo, como aconteceu neste caso.

Limites do precedente

A decisão é de uma turma, e não um repetitivo: tem peso como precedente, mas não vincula os juízes como uma tese de Tema. A ementa cita precedentes no mesmo sentido, o que dá alguma estabilidade ao entendimento, e vale acompanhar os julgamentos seguintes.

O acórdão também não autoriza retirar bens de capital essenciais durante o stay period, porque a proteção do § 7º-A continua valendo nesse intervalo. O que o STJ afastou foi o uso da preservação da empresa como argumento genérico depois do prazo.

A recuperação ainda pode atrasar a execução por outros caminhos, como a discussão sobre a natureza do crédito ou sobre o registro da garantia. Contrato registrado e decisão anterior reconhecendo o crédito como extraconcursal reduzem esse risco.

Processo: REsp 1.994.200/SC, Quarta Turma do STJ, relatora ministra Maria Isabel Gallotti. Baixe o acórdão no site do STJ.

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